sexta-feira, 21 de maio de 2010

Acordou num sobressalto e a cena da cabeça batendo no asfalto como ovo cru tilintava em sua cabeça.
Sentiu ódio novamente pela amiga que perdera por traição.
Desta vez, não da amiga, da traição.
Chorou pelos pais de sua amiga, pela mãe de tão boa alma que outrora não negara à pequena menina sua real identidade. Nunca se esqueceria desta lição de vida.
E choveu. Choveu forte.
As ruas se alagaram na hora em que iriam partir...
E atravessaram as poças altas como crianças brincando na piscina do clube.
E se beijaram. Era desta vez um beijo apaixonado de despedida, embora partissem juntos...
Ela olhou para ele e sentiu amor.
E depois da chuva, chorou e correu ao ver o corpo estendido sobre o asfalto.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Então, hoje fora marcada pela presença.
Ainda que na distância física, ela chamou seu nome e pareceu ouvir algo mais do que ecos.
Se deu conta que tudo o que sentia era apenas afeto esparramado no vazio.
Percebeu que por mais importante que fosse, existiria sempre algo a mais.
(Procurou esse conceito do a Mais, e o que encontrou em Lacan, só a confundiu mais ainda).
Se o que sentira fora sacanagem ou afeto, o tempo haverá de confirmar depois.
Esses espasmos sempre se deram après cours, em noites mal-dormidas, o seriado martelando suas entranhas, a imagem do Pai presente em cada cena.
As cortinas desceram, o palco ficou vazio, e só então fora capaz de perceber que a pior solidão que poderia sentir seria a da própria companhia.
Isso lhe deu força. Se amava como poucos. Não de um amor arrogante, pedante ou auto-idolatra.
Pois reconhecia quem era e o que desejava.
Se amava de uma forma mais sobrevivente. Encorajadora. Digna.
Descobrira que ter seu valor era algo conquistado, que não poderá ser arrancado junto com a máscara.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A Bailarina - Cecilia Meireles

Esta menina tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

in Ou isto ou aquilo, Ed. Nova Fronteira

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Alma Imoral


Há pouco que gratifique mais do que o tocar da alma pela arte.
A Alma imoral, texto de Nilton Bonder, adaptado e encenado por Clarice Niskier gratifica pela forma.
Pelo conteúdo, pela interpretação sem dramatização.
Pela coragem de expor a alma na epiderme...
Vestindo seu corpo da nudez da imoralidade.
Imoralidade absoluta.
Sem clichês baratos, frases prontas, falsos testemunhos.
Só a alma ex-posta.
Sem uso do autor para justificar atos próprios.
Indubitavelmente,
Na imoralidade há um código.


No Teatro Augusta, sextas, sábados e domingos.
http://www.teatroaugusta.com.br/

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Aquilo que não mata, fortalece.

Inteligência, beleza, magreza...
Predicados parciais que dependem dos olhos de quem vê.
Futilidade é julgamento, e isto, pra mim, não serve!
Confrontos podem ser encarados como obstáculos.
Alguns pulam, outros contornam, há quem volte e quem fica aflito.
Depende do condicionamento do gladiador em questão.
De todo modo, há confrontos que fortalecem ou enfraquecem, assim como o mesmo vento que alimenta uma fogueira, apaga uma vela.
E se o olhar de fora vê como um contentar-se com pouco,
melhor continuar no afastamento mesmo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

AMIZADE VERDADEIRA





Pítias, condenado à morte pelo tirano Dionísio, passava na prisão os seus últimos dias.

Dizia não temer a morte, mas como explicar que seus olhos se enchessem de lágrimas

ao ver o caminho que se abria diante das grades da prisão? Sim, era a dura lembrança dos velhos pais! Era ele o arrimo e o consolo deles. Não mais suportando,

um dia Pítias disse ao tirano: - Permita-me ir à casa abraçar meus pais e resolver

meus negócios. Estarei de volta em quatro dias, sem acrescentar nem uma hora a mais.

- Como posso acreditar na sua promessa? Os caminhos são desertos.

O que você quer mesmo é fugir - respondeu Dionísio, irônica e zombeteiramente.

- Senhor, é preciso que eu vá. Meus pais estão velhinhos e só contam comigo para

se defenderem - insistiu Pítias com o olhar nublado de lágrimas.

Vendo que o tirano se mantinha irredutível, Damon, jovem e amigo de Pítias,

interveio propondo:

- Conceda a licença que meu amigo pede; conheço seus pais e sei que carecem

da ajuda do filho. Deixe-o partir e garanto sua volta dentro dos dias previstos,

sem faltar uma hora, para lhe entregar a cabeça.

A resposta foi um não categórico. Compreendendo o sofrimento do amigo,

Damon propôs ficar na prisão em lugar de Pítias e morreria no lugar dele se

necessário fosse. O tirano, surpreendido, aceitou a proposta e depois de um

prolongado abraço no amigo, Pítias partiu.

O dia marcado para sua execução amanheceu ensolarado. As horas passavam

céleres e a guarda já se mostrava inquieta. Entretanto, Damon procurava restabelecer

a calma, garantindo que o amigo chegaria em tempo. Finalmente chegara a hora da execução. Os guardas tiraram os grilhões dos pés de Damon e

o conduziram à praça, onde a multidão acompanhava em silêncio a cada um dos

seus passos. Subiu, então, ao cadafalso.

Uma estranha agitação levou a multidão a prorromper em gritos.

Era Pítias que chegava exausto e quase sem fôlego.

Porém, rompendo a multidão, galgou os degraus do cadafalso, onde,

abraçando o amigo, entregou-se ao carrasco sem o menor pavor.

Os soluços da multidão comovida chegaram aos ouvidos do tirano.

Este, pondo-se de pé em sua tribuna, para melhor se convencer da cena que

acabava de acontecer na praça, levantou as mãos e bradou com firmeza:

- Parem imediatamente com a execução! Esses dois jovens são dignos do amor dos homens de bem, porque sabem o quanto custa a palavra. Eles provaram saber o

quanto vale a honra e o bom nome! Descendo imediatamente daquela

tribuna, dirigiu-se a Pítias e a Damon. Dionísio estava perplexo e os abraçando comovidamente, lhes falou: - Eu daria tudo para ter amigos como vocês!



Fabulas - Parte 1

O Sapo e o Escorpião




Certa vez, um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio.



O escorpião vinha fazer um pedido:

"Sapinho, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo?"



O sapo respondeu: "Só se eu fosse tolo! Você vai me picar, eu vou ficar paralisado e vou afundar."



Disse o escorpião: "Isso é ridículo! Se eu o picasse, ambos afundaríamos."



Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, enquanto nadava para atravessar o rio.

No meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo.



Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: "Por quê? Por quê?"



E o escorpião respondeu: "Por que sou um escorpião e essa é a minha natureza."



Uma parábola africana "Capturado" na Página do Sábio www.geocities.com/~esabio/

terça-feira, 13 de abril de 2010

Sobre amigos

..."Escolho meus amigos não pela pele, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.


A mim não interessam os bons de espírito, nem os maus de hábitos, fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Quero que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco.

Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.

Não quero só ombro ou colo, quero sua maior alegria, amigo que não ri junto não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.

Não quero risos previsíveis nem choros piedosos. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.Tenho amigos para saber quem eu sou.

Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei que 'normalidade' é uma ilusão imbecil e estéril.... "

Oscar Wilde

segunda-feira, 5 de abril de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

terça-feira, 16 de março de 2010

Seria uma mulher mais fria e distante, não fosse o cheiro que encontrou dentro do armário.
Prendeu todo o ar que coube em seus pulmões, como se assim pudesse permanecer dentro dela.
Havia um medo profundo que lhe escapasse essa paixão, essas lembranças...
Percebeu que precisaria lutar muito para deixar para trás.
E ressentiu por não conseguir amar o próximo.
Percebeu uma emoção na voz do amigo que lhe emocionou.
E sentiu muita saudade. Muita falta. E medo.
E sentiu na alma o sabor das comidas que costumava fazer.
Com o peito estupefato de lembranças doces, a mente carregada de fortes emoções,
abriu a porta, e passou por ela altiva.
Segura e amada.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Minha Lista de Filmes

1) O Fabuloso Destino de Amelie Poulin - Jean Pierre Jeunet
2) Bonequinha de Luxo - Blake Edwards
3) Coco Antes de Chanel - Anne Fontaine
4) Grey Gardens - Ellen Hovde e Albert Maysles
5) Pulp Fiction - Quentin Tarantino
6) Quem quer ser um milionário? - Danny Boyle
7) A Vida é Bela - Roberto Benigni
8) Dogville - Lars von Trier
9) A Bela da Tarde - Luis Bunuel
10) V de Vingança - James McTeigue
11) O Diabo Veste Prada - David Frankel
12) Closer - Perto Demais - Mike Nichols

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Ou a mulher não existe, ou ela é uma fantasia criada pelo masculino

A questão do feminino na psicanálise se apresentou a Freud desde o caso Dora (1905), onde ele começa a construir de que forma a mulher escolhe seu objeto amoroso. Depois, em Bate-se numa criança , texto de 1919, a gênese da perversão, ele começa a articular a posição do feminino com o masoquismo. No mesmo ano, temos Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina, onde fala da escolha do objeto amoroso homossexual.

Para Freud, se nasce macho ou fêmea, mas torna-se homem ou mulher pelas identificações. Todo sexo é basicamente masculino e fálico e as diferenças se estabelecem pelo Édipo (a posição diante do ter ou não o falo). Ele vê o feminino como exceção ao masculino. Ser feminino é não-ser masculino.

Para Lacan, a lógica da vida amorosa é considerada de forma ainda mais complexa. Ele ultrapassou o ponto até onde Freud chegou, o falo como referência para a partilha sexual, e propõe uma outra lógica.

Lacan sugere que o amor da mulher seria erotomaníaco, termo introduzido por Clérambault: as mulheres não amam, mas desejam ser amadas. No amor erotomaníaco, a lógica do não todo predomina. A erotômana, em sua tentativa de estabelecer uma relação com o Outro absoluto, só pode situar-se na posição de produzir ela mesma, como objeto, um saber sobre o que se espera dela, ante a impossibilidade de se articular a partir do falo. Ela deseja ser amada por alguém superior, que não dá a ela qualquer importância. Como metáfora: a mulher se põe como necessariamente ser amada, a mulher se coloca estruturalmente frente ao homem na posição de ser amada pelo Outro. A mulher quer ser amada e para isso, ela veste uma máscara de toda, de fálica. Faz semblant daquilo que supõe que precisa para ser amada.

Já o amor do homem seria fetichista, mais determinado pela fantasia de recobrimento da falta do Outro, S (A). O sujeito masculino ama sua parceira “na medida em que o significante do falo a determina como sendo a que dá no amor o que ela não tem”. “O fetiche é o substituto do falo da mulher (da mãe), em cuja existência a criança pequena tinha a crença outrora e ao qual, sabemos porque não quer renunciar”

Lacan fala de forma fetichista do amor masculino porque o brilho fálico reveste a mulher como um véu, encobrindo a castração. O homem fetichiza a mulher ao preço de se eclipsar na sua fantasia.

O eixo disso é o falo.

A função da mulher é ser o falo, isto é, o que completa o homem. Ela serve para o homem negar sua castração, ou ainda, ela serve de véu para encobrir/velar sua castração . Se para Freud a mulher é um homem castrado e busca na maternidade a completude fálica, filho=pênis=falo, para o último Lacan – a partir do Seminário XX – há a especificidade do gozo feminino – um gozo exclusivo da mulher.

A teoria dos gozos é a que orienta a clínica lacaniana. A forma pela qual um sujeito, sexuado como homem ou com mulher, se coloca frente à castração e ao falo, é determinante para sua posição, masculina ou feminina. A forma pela qual o sujeito busca seu objeto amoroso. Objeto este que vem compensar a carência universal de forma parcial, compensatória para apoderar-se daquilo que Lacan chamou de “o Nome-do-Pai”.

Esse objeto outro, compensatório, que Lacan chama de “objeto a”, qualifica sempre uma alteridade, alguma coisa que está para além do sujeito desejante e que ele quer para si. Assim, quando esse “objeto a” se instala como função compensatória, tem-se de procurar sempre quem é esse “outro” que se coloca no lugar do desejo do sujeito.

Lacan começaria a pensar este conceito a partir da leitura de Luto e Melancolia de Freud. Ao se referir à pessoa que foi perdida e de quem se faz o luto, Freud escreve a palavra “objeto”, e não “pessoa”. Nota-se nesta gênese freudiana do conceito lacaniano a idéia de uma perda, de alguma coisa que não existe mais, de um fantasma do qual temos de fazer luto para nos libertarmos de sua lembrança.

O objeto desejante desenvolverá certa astúcia ao tentar aprisionar brevemente esse “objeto a” em alguma forma compensatória de satisfação, de gozo. Uma astúcia destinada a ser sempre uma compensação e que instaura apenas uma satisfação parcial, metonímica, diante do desejo. Portanto, uma relação de substituição que transformará todo “objeto a”, escolhido pelo sujeito desejante, num fantasma. E a maior fantasmagoria eleita pelo masculino será o feminino, visado como objeto de gozo total, impossível de ser completado.

Homens e mulheres realmente não são iguais na sua formação sexual, afinal, a escolha de objeto é sempre subjetiva e caso a caso, daí a relação sexual, simétrica, de completude não existir.

Por mais próxima que a mulher esteja do homem, ela é sempre invisível para ele, o que fará Lacan formar a frase: “A mulher não existe.” A mulher lhe escapa sempre. Na verdade, ela, como todo objeto de desejo, pertence à esfera desse “objeto a”, parcial, metonímico por definição, mas que consegue ancorar a pulsão do desejo por algum tempo. A mulher real e individual presente no ato sexual, representa, portanto, apenas uma possibilidade nessa série infinita que alucina o masculino.

O filme Closer – Perto Demais, do diretor Mike Nichols (do roteiro baseado na peça teatral homônima de Patrick Marber) pode ser utilizado como exemplo. Perto demais, a mulher torna-se ainda mais inexistente ao masculino.

O roteiro conta com personagens de profissões emblemáticas, que já definem o que acontecerá com o relacionamento dos amantes:

Dan é um jornalista encarregado da seção de obituários. Ele conta como os obituários são escritos para esconderem sempre a pessoa real. O que de fato as pessoas foram na vida não importa nos obituários. Mas sim, a visão edulcorada e elegante em que todos se transformam em pais amantíssimos, esposos fiéis e profissionais competentes, mesmo que tenham sido o oposto disso tudo. Ou seja, nem mesmo na morte, revelamos o que somos de fato. O falso obituário dos jornais incumbe-se de manter o distanciamento necessário da pessoa real. O obituário, que deveria revelar finalmente a pessoa, a mantém, agora, definitivamente distante.

Anna, por sua vez, é fotógrafa especializada em retratos de desconhecidos que ela retrata em grandes closes. Rostos anônimos, mas ela os exibe em grande proximidade, em grandes ampliações. Mesmo com tal exposição ampliada, eles continuam desconhecidos. É uma falsa aproximação. Rostos próximos demais. Tão desconhecidos quanto os das mulheres quando elas se apresentam para os homens que pensam que as vêm por inteiro e acreditam que elas são o que estão vendo.

Larry é medico dermatologista. Perto demais do corpo das pessoas. Próximo da pele. Mas nunca além. O dermatologista se detém na epiderme das pessoas, nunca ultrapassando o limite externo do corpo. Nunca penetrando realmente no âmago do paciente. Sempre na epiderme, nesta exterioridade que nos delimita do interior. Assim será também em seus relacionamentos com o feminino. Nunca indo além da sexualidade explícita. Não é à toa que será ele quem exigirá tudo da stripper. Visão total. Mesmo assim, ele não conseguirá ir além da epiderme ginecológica da mulher.

Jane, por sua vez, é a stripper que se dá totalmente ao olhar masculino. Olhar que nunca consegue ir além do seu corpo em exibição, da sua epiderme. Pertos demais do seu corpo nu, os olhares masculinos estão sempre longe demais dela como mulher. Ela é a que encerra, em sua profissão, o paradoxo dessas relações íntimas que estão sempre à distância. Ela é um “objeto a” por excelência, pois oferece seu corpo como objeto parcial de um desejo nunca realizado.

Jane, desde seu primeiro encontro com Dan, usa um nome falso – Alice Ayres. O relacionamento dos dois já começa com uma Alice que não existe. A primeira frase que ela diz a Dan é: Hello, stranger! (Olá, estranho!).

A cena em que os dos dois homens acessam a internet, numa dessas salas de encontro, e um deles finge ser uma mulher. O namoro virtual logo descamba para uma espécie de sexo virtual. O que mostra que para o homem basta que ele tenha um projeção de mulher em sua mente para que tudo funcione e a relação sexual se faça.

Afinal, tudo não passa mesmo de uma fantasmagoria masculina.

Talvez, a cena em que mais se revele essa fissura entre homem e mulher seja a do clube noturno onde Alice/Jane faz strip-tease.

Essa mulher que se despe completamente para os olhares de estranhos que estariam tão próximos dela, quando se estaria no momento de aproximação máxima, é justamente quando ela fica mais distante, num simulacro inatingível de desejo e de fantasia.

No clube, Larry, pede para vê-la totalmente nua e ainda paga para que ela exiba suas partes íntimas, da maneira mais crua. Aproximação visual máxima que não preenche seus desejos. Ele também paga para que ela lhe revele seu verdadeiro nome. Ela diz. Mas ele pensa que ela mente. Ele nunca saberá o que as mulheres são, portanto, tanto faz seu nome verdadeiro.

Nuas ou perto demais (em closes), elas são sempre invisíveis ao masculino.

Perto demais do feminino é sempre muito longe para o masculino.





terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Ele olhou para ela com olhar arrependido.
Ela olhou para ele com olhar de compaixão.
Pois ela lhe dera a liberdade. Ele a usou.
Ele odiou que ela lhe libertara, embora tenha resolvido cumprir o contrato.
Ela, de longe, testemunhou.
Duvidava que seria feliz.
Pouco importa.
Ela mantinha, passiva, sua capacidade de amar.
Amava no intransitivo, e por ser assim, poderia continuar sendo feliz.
Ela poderia seguir amando. Como Neruda.
Ele conhecia apenas Vinícius.
Ela era capaz de amar seu scoth como amava o amor de sua vida.
Era única.
Deu-lhe um beijo apaixonado.
Depois, saiu.
Queria seguir sua vida e acendeu um cigarro.
Tomou o último trago e passou pela porta.
Ele a amava como Chico, o Buarque.
Ela o amava como Elis, a Regina.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Depois de passados alguns dias, impediu-se de ver a realidade.

Disse ser demasiado doloroso pensar naquilo que desejava e não podia ter.

Mudanças soaram difíceis, embora o calor não saísse de seu corpo, por mais que estivesse brindando com um copo de whisky no Alasca.

O homem contou tudo isso, e por mais que viajasse à prazo pro inferno, um dia voltaria.

Precisou viver sua vida. Ter seus filhos. Comer o último pedaço do bolo de aniversário.

Beijou tanto aquela criança que desejou ter uma tão especial.

Isso sim poderia ser classificado como amor, pois não havia ciúmes e nem competição.

Quando o navio aportou no Alasca percebeu que a vela que tanto tentou apagar se tornara fogueira, embora sua vaidade  impedisse de assumir para si que precisava mais do que suspeitara.

A paixão voltou a fazer falta em sua vida.

A paixão estava consumindo suas vísceras e não conseguia fugir disso. Mesmo no Alasca.

Mas por enquanto não tinha forças para voltar.

Nem para dizer palavra.

Procurou desviar dos icebergs e em sua cabeça, a lembrança da noite derradeira era tão devastadora quanto a baleia que insistia em brincar com o barco.

Sentiu-se claudicante por negar-se.

Por negar o mais verdadeiro e pulsante em si.

Não imaginou o quanto seu silêncio era devastador.

O quanto apunhalava um coração, golpe a golpe.

Estava no Alasca embora seu sangue implorasse por terras mais quentes. Cálidas.

Precisava sucumbir seu coração ao frio.

Acreditar que comparado à Vinicius, aquilo que sentira fora mais-amor.

Fez um rápido cálculo matemático e percebeu que o futuro estava próximo do presente, e que as palavras do homem em breve se concretizariam.

Estaria no café combinado, às 17 horas, em Marrakesh.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Novela também é denso... rs

Tudo na vida passa, porém algumas coisas marcam...
E essas que marcam não podemos simplesmente deixarem passar como se nada tivesse acontecido.
É possível provocar um afastamento dos corpos, todavia as almas não se afastem jamais.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Sobre os desejos para 2010

- ler pelo menos um livro por mês
- encontrar mais as pessoas que pouco vi em 2009
- trabalhar como se fosse um hobby
- fazer aulas de canto
- fazer aulas de dança
- inserir novamente a magia na vida
- tomar menos coca, ainda que light ou zero
- emagrecer
- continuar o caminho que venho trilhando desde o final de 2008
- dar menos importâcia ao passado, viver o presente intensamente e não fazer projetos sólidos demais para o fututo
- começar de uma vez por todas a ticckar a lista de filmes que quero assistir

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010




Nunca gostou de livros meramente descritivos.

Dizia que eram chatos e que era pura perda de tempo se prender a detalhes que pouco importavam no final das contas, uma vez que história é história.

Levantou-se com uma leve irritação. Mal humor presente.

Lembrou de alguns anos passados, e trouxe os mesmos sorrisos para o presente.

Havia uma música de batidas constantes, com um triângulo batendo no fundo.

Dançou, mesmo sem saber dançar.

Lembrou dos olhos, do sabor de uma dose de whisky cujo gelo já havia derretido, do braço envolvendo a cintura. Do perfume amadeirado que exalava de sua pele,

Dos gestos canhotos que a faziam rodopiar.
Sentira as descobertas do que no futuro fariam suas bases tremerem.

Fora tudo muito leve e muito intenso. As trocas, os sorrisos, as garfadas. Tudo havia se congelado no tempo.

A imagem das pernas cruzadas de forma tão masculina.

O jeito de mexer em seus cabelos, de assoprar em seu ouvido esquerdo.

O jantar estava pronto, porém não foi servido. Estava aguardando as garrafas de vinho tinto se esvaziarem e num momento posterior, os corpos se encherem. De prazer finito.

Era uma despedida. Nunca um adeus.

Sabe-se lá quando essas cenas se tornariam reais. Eram quase oníricas.

Feliz. Demasiada e obcenamente feliz.

O dia amanheceu e com ele as memórias foram guardadas dentro da caixa musicada.

E dia após dia, o que não fora guardado, fora escrito em metáforas.

E o que não foi escrito, foi dito. Entre um chopp e outro, numa esquina que poderia ser uma qualquer, não fosse sua presença.

Seus olhos rodopiaram, e recebeu cada palavra com uma dignidade de poucos. Sim, foi capaz de reconhecer verdade em cada uma delas, e admitiu que já percebera o sentido de tudo aquilo em uma outra ocasião.

Ainda que naquele momento não estivessem prontos, acendeu um cigarro e olhou com uma certa malícia de quem se sente pouco à vontade.

Tomou o último gole, sozinho no fundo do copo, e pediu a nota. Ao chegar no carro, abriu a porta, fez um curto caminho (por que o caminho não poderia ser mais longo?), e despediu-se novamente.

Não era um adeus. Era uma despedida.

Aquela noite foi decisiva. A partir de então pudera ter certeza entre o moral e o profano.

E já havia tomado sua decisão, ainda que os outros a desconhecesse.

Nunca mais pôde evitar dialogar aos 4 ventos, falando consigo, fingindo ter alguém tão próximo.

Havia a barreira da realidade. Aliás, haviam duas realidades, e só foi esse fato que impediu a completa insensatez de sua conduta.

Não sem sanidade, apenas descobrira como não evitar o que era vida.

Logo depois, foi atendida e recebeu alta.

Conhecia mais de si que qualquer um. Nunca mais ignoraria aquelas duras lições de amor, de afeto, de bondade, ainda que se machucasse.

Ainda que para isso precisasse contar à pessoa de quem nunca mais tivera notícia que ela fora traída.
Não por vingança. Por puro desejo de limpar sua trajetória e poder começar do zero.

Sentia tanta falta da família e foi incapaz de fazer aquele telefonema.

Teria que pedir por mais lâminas para analisar sua essência, mas agora estava por conta própria.

E saiu radiante com sua mais nova conquista: a identidade.